
O aborto ao longo da história
Um dos pais da Filosofia, Platão, em seu livro República defendeu a interrupção da gravidez em todas as mulheres que engravidassem após os 40 anos. Por trás dessa afirmação estava a concepção de que os casais deveriam gerar filhos para o Estado durante um determinado período. Portanto quando a mulher chegasse a uma idade avançada essa função cessava e a indicação era clara: o aborto.
As ideias de Platão perduraram por muitos séculos e chegaram a nortear a ciência da Roma Antiga, onde a interrupção da gravidez era ética e moralmente aceitável. Se alguém se opusesse ao aborto era o pai que não queria ser privado de um filho. A grande divergência estava no período em que isso poderia acontecer. Aristoteles definia o início da vida com o primeiro movimento que o feto fazia. Para ele isso acontecia no 40° dia para os meninos e no 90° dia para as meninas (pois é ele achava que as mulheres se desenvolviam mais lentamente). Como não havia como determinar o sexo do feto ele optou pela segurança e defendia que o feto só poderia ser abortado até o 40° dia de gestação.
A tese aristotélica influenciou o pensamento da igreja católica até 1588 quando o Papa Sixto V condenou a interrupção da gravidez. Seu sucessor Gregório XIV voltou atrás e determinou que o embrião não formado não pode ser considerado ser humano. Esse conceito perdurou até 1869 quando Pio IX propôs que cientistas e teológos definissem o começo da vida. Como não chegaram a um consenso o Papa, precavido, resolveu não arriscar e definiu a hipótese mais precoce, o encontro do espermatozóide com o óvulo. Portanto o conceito de vida da igreja católica hoje é baseado na precaução de Pio IX.
E para a ciência quando a vida começa?
Existem 5 respostas para essa pergunta:
- Visão Genética: A vida começa quando o espermatozóide e o óvulo fundem-se criando um conjunto genético único. Essa é a opinião da Igreja Católica hoje.
- Visão Embriológica: O começo da vida da-se na 3ª semana de gravidez, quando é estabelecida a individualidade humana. Isso porque até 12 dias após a fecundação o embrião é capaz de gerar dois ou mais indivíduos. Essa é a posição defendida por quem defende a pílula do dia seguinte.
- Visão Neurológica: Defende o mesmo princípio para a determinação da morte, ou seja, a atividade cerebral. Essa data não é consensual. Uns defendem que é na 8ª semana onde o feto tem um circuito básico de neurônios que será a base do sistema nervoso, outros na 20ª semana que é quando a mãe sente os movimentos do feto.
- Visão Ecológica: É a capacidade de sobreviver fora da útero materno. Isso é determinado pelo pleno funcionamento dos pulmões, o que acontece entre a 20° e 24° semana de gravidez. Esse é o limite que a Suprema Corte americana baseou-se para a autorização do aborto nos Estados Unidos.
- Visão Metabólica: Defende que não existe um começo. O óvulo e os espermatozóides são tão vivos quanto uma pessoa (o que significaria que masturbação é genocídio). Defendem, também, que o desenvolvimento de uma criança é um processo contínuo e sem um marco inaugural.

Então podemos eliminar uma vida do planeta Terra por que ela está nos atingindo? Essa resposta já foi sim no caso da varíola, que foi o primeiro ser vivo extinto por decisão coletiva da humanidade. Bom não temos nenhuma dúvida, muito vindo pelo instinto de sobrevivência da espécie, de que é importante combatermos uma doença que é mortal (para nós humanos). Se olhassemos a nossa evolução, do ponto de vista ecológico, teríamos que ter uma ação muito drástica para a diminuição da população humana no planeta já que somos os maiores consumidores dos bens naturais. E o planeta, como já sabemos, mostra sinais claros de que não aguenta mais nossa presença aqui.
Ainda há um fator de deve ser observado. Cerca de 25% das gravidezes termina em aborto espontâneo e muitas vezes as futuras mães nem sabem disso. A Organização Mundial de Saúde, OMS, só considera tecnicamente aborto se o feto tiver, pelo menos, 500 gramas o que só é alcançado na 20° semana de gestação.
E o que dizem as religiões?
A religião mais radical contra o aborto é a católica. Para o Papa Bento XVI "negar o dom da vida, de suprimir ou manipular a vida que nasce é contrário ao amor humano", ou seja, o catolicismo condena, também, o uso de células tronco embrionárias (mesmo que as pesquisas possam salvar vidas no futuro) e não permite o uso de métodos anti concepcionais (a não ser o celibato). Praticar aborto é considerado crime passível de excomunhão. Entretanto a Igreja Católica não tem se demonstrado tão pró-vida em outras situações:- A Igreja defende a legitimidade da "guerra justa" em casos de tirania irremovível de outra forma (princípio do mal menor).
- Em alguns países, aceita a pena de morte.
- A Igreja patrocinou a Inquisição, com a eliminação física de pessoas tidas como hereges da fé.
- Na colonização, a Igreja tolerou e participou do genocídio em relação aos índios, abençoou a escravidão dos negros que foram maltratados as vezes até a morte.
O Islamismo considera o início da vida quando a alma é soprada por Alá no feto. Isso acontece cerca de 120 dias depois da fecundação.
Para o Budismo a vida é um processo ininterrupto. Ela está presente em todo o lugar. Existem correntes que defendem e outras que não defendem o aborto.
Já o Hinduísmo crê que a alma e a matéria se encontram na fecundação e é aí que começa a vida. Em geral opõem-se a gravidez.
O aborto pelo mundo

Abaixo veja as legendas do mapa ao lado:
█ Legal
██ Legal em caso de estupro, risco de vida da mãe, problemas de saúde física ou mental, fatores socioeconômicos e/ou defeitos do feto
██ Ilegal exceto em casos de estupro, risco de vida para a mãe, problemas de saúde física ou mental e/ou defeitos do feto
██ Ilegal exceto em caso de estupro, risco de vida para a mães e/ou problemas de saúde física ou mental
██ Ilegal exceto em casos de risco de vida para a mãe, problemas de saúde física e/ou mental
██ Ilegal sem exceções
██ Varia de cada região do país
██ Não há informações
Linhas verticais (várias cores): Ilegal mas tolerado
Questões sobre o aborto
O aborto é um fato. Isso é inegável. Pesquisas apontam que morrem cerca de 67 mil mulheres por ano vítimas de abortos clandestinos. No Brasil a média de morte materna é de 156 mulheres para cada 100 mil nascimentos. O aborto é considerado uma das principais causas de mortalidade materna. Cerca de 60% dos leitos de ginecologia no Brasil são ocupados por mulheres com sequelas de aborto.O aborto não escolhe classe social. Mulheres com condições financeiras fazem aborto em clínicas, mesmo que clandestinas e com isso conseguem minimizar os riscos. Entrentanto para as mulheres pobres sobra apenas aborteiras, chás, agulhas de croché, etc.. o que muitas vezes traz como consequência infecções e até mesmo risco de vida.
Com a legalização o aborto irá aumentar. Isso não é verdade. Na Holanda onde o aborto é legalizado a incidência é de 0,5% em cada 100 mulheres, no Brasil é de 3,5% em cada 100 e isso é só uma projeção, o número pode ser maior.
Minha modesta conclusão
Esse é um dos assuntos que mais causa polêmica hoje no Brasil. Esconder a situação não está resolvendo o problema. Um dos pilares de nossa democracia é a separação do Estado e da Religião. Sob esse ponto de vista o aborto deve ser encarado sob o aspecto da sociologia, da saúde e da ciência.
O Estado deve ter um papel fundamental na definição das políticas de planejamento familiar, facilitar o acesso aos métodos contraceptivos às famílias de baixa renda e investirmos fortemente em educação sexual nas escolas para combater a gravidez na adolescência.
Mas o que, com certeza, não podemos fazer é abortar essa discussão. Esse é o pior crime.